Eu estava bem ansioso no início do dia! Minha enfermeira preferida, a senhora Kobayashi, veio me entregar meu café da manhã e me passar o horário da minha saída. Finalmente, eu estava de alta! Assim que o horário de atendimento ao público começasse, minha família poderia vir me buscar a qualquer momento.
Tomei um banho, coloquei minhas roupas novas e fiquei cheiroso pra não levar bronca (porque adultos adoram cheirar nosso cabelo e atrás das orelhas)...
Já pronto, assisti a uma corrida dos ponteiros do relógio (uma corrida bem injusta, diga-se de passagem...) e às 8h e 2, quando já tinha percebido que o baixo e gordo nunca teve chance contra o mais alto e magrela, mamãe e minha irmã chegaram.
Logo vi que meu irmão não entraria com elas, porque esse era um hospital só pra meninas e meninos não podiam entrar, com exceção de mim (afinal, eu não sou uma menina, ok?), mas quando cheguei no carro, ele também não estava lá.
Esse dia era muito importante pra mim e eu estava bem ansioso pra vê-lo de novo, porque já fazia dois anos... Mas, não vê-lo ali fez o meu coração pular bem forte dentro do meu peito, quase como um animal preso numa gaiola... Doeu um pouco e meus olhos se encheram de lágrimas quando eu pensei que talvez ele ainda não tivesse me perdoado... Mas, eu olhei pra cima e puxei as lágrimas pra dentro, engolindo-as por trás do nariz... Essa é uma boa técnica pra não preocupar as pessoas... Chorar só causa bagunça e transtornos pra todo mundo que te ama... Engolir as lágrimas é bom. Tem proteínas e faz bem pra saúde.
Como um bom protagonista, tracei minha rota em direção ao sucesso! Iria me aproveitar de que voltaremos a dividir o mesmo teto e minha principal missão seria pedir desculpas e convencê-lo de que aquilo não iria mais ocorrer nunca mais e que nós podíamos ser irmãos normais de agora em diante... No plano traçado em minha mente enquanto ensaiava as desculpas, nós estaríamos brincando de pique-esconde em menos de uma semana...
Com esses ensaios, sinceramente não lembro o que conversamos no caminho pra casa... Mas, foi a mana que estava dirigindo, então me senti um pouco estranho, como se agora ela fosse uma adulta... Mas, uma adulta esquisita, que veio me visitar com uma camisa da Harleyquinn...
Então, depois de passarmos pela loja de conveniência (que tirou a minha máquina de refrigerantes favorita 😞 ) e pela banca de revistas, viramos à direita e estávamos em casa! A mesma casa de sempre, com um canteiro de flores novas, mas a mesma casa que deixei quando fui no Comiket de dois anos atrás com o irmão Hikaru e a irmã Hanaru.
Enfim, estava de volta! Com minhas costas ocupadas pela mochila, minhas mãos ocupadas com o travesseiro-oniguiri e uma das malas, ouvi mamãe trancar o carro e gritar pro maninho vir abrir a porta e ajudar com as malas, fazendo alguma piada sobre ele ainda estar dormindo... Essa distração me salvou, porque o truque dos olhos não estava funcionando tão bem agora...
Mas, aí a porta se abriu! Não sozinha, claro. Do outro lado, estava uma imagem que me levou muito mais tempo do que eu gostaria pra associar com meu irmão. Mesmo porque nós somos gêmeos... Então não reconhecê-lo é como não reconhecer a mim mesmo... Os mesmos olhos, mesmo nariz, mesma boca... Mas, puxa... Então é assim que eu ficaria se usasse piercings e um cabelo punk... E que músculos eram aqueles? Quando eu saí daqui, meu irmãozinho nem comia legumes e agora parecia um personagem de Dragon Ball...
Devo ter ficado bastante tempo parado pensando sobre punks, o Gohan e o sermão da Chi Chi (são personagens de Dragon Ball, doutora!), porque ele veio todo o caminho até mim e se ofereceu pra segurar a mala.
Foi então que me senti meio perdido... Meu plano infalível de pedir desculpas pra ele não me parecia mais tão perfeito assim... Quer dizer, ele foi todo baseado em uma pessoa que eu conhecia tão bem quanto a mim mesmo... Eu não sei se funcionaria no Gohan punk...
Mas, de certa forma, eu não vou mentir e dizer que não fiquei aliviado... Porque agora as desculpas pareciam mais reais, tão reais que eu estava realmente convencido de que poderíamos voltar a sermos irmãos normais (sinceramente, antes disso, as desculpas eram primeiro tentativas de convencer a mim mesmo e só depois convencer meu irmão... ^^’ ).
Mas, com esse alívio, veio uma profunda tristeza, como se aquela árvore ali estivesse realmente morrendo... E, por mais que eu não a aguasse por quase dois anos, é extremamente triste que ela morra assim de repente...
E, com tantos sentimentos juntos, o cheirinho de pão novo que vinha da cafeteria da mamãe (que funcionava na garagem) encheu o ambiente de nostalgia... E nesse momento eu percebi quantas saudades eu sentia desse lugar... Até de coisas que parecem não fazer falta até que você percebe que sua vida não seria a mesma sem elas... Como o “creck” que as escadas faziam enquanto as subíamos...
Sem esse barulho, eu nunca teria quebrado minha perna enquanto tentava descer pendurado numa corda pra roubar pudim da geladeira de madrugada... Eu também nunca teria feito o maninho chorar tanto e não saberia como aquelas lágrimas se tornariam um sorriso quando eu o prometesse todos os desenhos do meu gesso... e eu também nunca teria visto o homem-aranha mais mal-desenhado de todos e também o mais legal, pendurado num fundo branco em sua teia indestrutível com um pudim na mão...
Subimos por entre os “crecks”, passo após passo, carregando as malas pra cima... A mana e a mamãe ficaram embaixo, e provavelmente eram as responsáveis pelos cheiros que vinham da cozinha. Aquele que há dois anos se contentava em desenhar a super força do homem-aranha, agora carregava as malas de duas em duas escada acima, muito mais rápido que eu.
No percurso, cuidei pra não deixar cair nada e pra não chacoalhar muito (meu playstation, meu notebook e meus mangás estavam em algumas daquelas malas), mas a maioria foi levada pelo mano mesmo... Não dava pra ignorar o que dois anos deitado na cama trouxe de diferença pra gente...
Lá em cima, sem alterar sua expressão facial por nem um segundinho, tão sério quanto uma estátua, ele me ajudou a colocar tudo no quarto. Mas, quando deitou a última mala no chão, suas mãos que saiam de debaixo dela estavam nitidamente esfoladas, provavelmente do peso que havia carregado...
Sem ser capaz de pensar antes, segurei as mãos dele entre as minhas e as trouxe para perto do coração, como se pudesse abraçá-las com a alma...
A forma como ele fazia o truque de engolir o choro com as mãos, engolindo a dor pra não incomodar os outros, ou ainda, pra ajudar os outros, me fez perceber o quão patético o meu próprio truque era. E, talvez por vergonha, meus olhos se negaram a continuá-lo...
Se você me perguntar agora, eu não vou saber porque eu estava chorando... Seria porque aquele chorão do meu irmão tinha mudado? Ou seria porque ele ainda era o mesmo, cobrindo minha retaguarda sem ganhar qualquer reconhecimento? Seria por que eu teria que aguentar aquele meu amor que nunca havia morrido desde o princípio? Ou seria por que ele havia ressucitado? Seria por que eu teria que pedir desculpas sem me sentir arrependido ou por que eu nunca ia conseguir me desculpar de nada? Seria por que meu quarto ainda era o mesmo ou por que não havia um único grão de poeira nas estantes? Seria por que o cheiro do bolo de milho se juntava ao chocolate quente preenchendo o ar do quarto? Ou seria por que era impossível saber se as mãos dele estavam tremendo embaixo das minhas? Seria por que ele ficou calado olhando pra mim usando o truque dos olhos ou por que ele respondeu a minha mãe que nos chamava pra “tirar o gosto da comida do hospital” dizendo que eu estava no banheiro?
Seria por que a voz dele não combinava nem um pouco com o olhar que ele tinha?
Seria um choro de felicidade? Ou um choro de desespero por saber que, por mais que tudo tenha mudado, em dois anos, nada mudou?
Seria tudo junto?
Nós ficamos ali até que minhas lágrimas acabassem e que eu soltasse as mãos dele. E, em silêncio, nós descemos as escadas para comer bolo.
Naquele momento, eu tenho certeza de que ele compreendia minhas lágrimas tanto quanto eu. E que ele sabia que eu compreendia o silêncio dele tanto quanto ele próprio.
Terminei o dia desempacotando minhas coisas e escrevendo aqui no diário.
Um dia cheio de altos e baixos... Mas, eu ainda acho que... ter um amor ressucitado não se compara a uma pequena complicação na minha missão original, não é?
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